Arquivado em: Devaneios
Faz tempo que eu não escrevo sobre o tempo, faz tempo que eu não escrevo de mim, com cara de menino bobo sorrindo a cada palavra, somando uma após a outra sem fôlego aos dedos. Faz tempo que eu mantenho tudo na gaveta, protegido com armadilhas o melhor de mim, o carinho que carrego em meus beijos, o gosto do meu toque, minhas palavras ludibriantes, minha devoção à algo que desejo. Faz tempo e é de tempos em tempos que eu tento como muita força afastar um fantasma de mim, um fantasma que carrega consigo latrinas de um sentimento roubado, sepultado em partes e jamais esquecido. Ele me visita em noites de verão, antes da chuva. E o tempo que se encarregaria de leva-lo embora tem feito um trabalho preguiçoso, até ontem. O tempo que eu dei, o tempo em que guardei e me escondi não foi em vão, até ontem. Antes de ontem eu brigava com ele sozinho, agora conto com a ajuda de um vento que sopra do oriente, que carrega nele sementes de um desejo que nem mesmo este conhece, com um poder oculto em seus lábios e uma força estranha em seus olhos.
Não quero mais que o tempo passe, não quero mais guardar nessa caixinha quadrada o sumo desse antigo que só me faz doer. Eu quero tudo o que sou de volta, e quero dar isso a alguém.
Você me ajuda?



